Mauricio Tuffani (Folha de S Paulo, BR, 03-03-2015) — WASET da Turquia, com telefone de contato inválido de EÁU, organiza conferências 116 golpes simultâneos em Fevereiro 2016 no Rio de Janeiro, BR

Mauricio Tuffani (Folha de S Paulo jornal, Brasil, 03-03-2015) —
WASET da Turquia, com telefone de contato inválido de Emirados Árabes Unidos, organiza conferências 116 golpes simultâneos em Fevereiro 2016 no Rio de Janeiro, BR

ciência

Eventos científicos “caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros

MAURÍCIO TUFFANI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Estão abertas inscrições, com taxas de até € 450 (R$ 1.453), para 116 reuniões científicas simultâneas em fevereiro de 2016 no Rio de Janeiro. O problema é que eventos como esses já são conhecidos como “scam conferences” (conferências-golpe, literalmente em inglês) no exterior. Organizados sem cuidados acadêmicos, eles são apontados como fraudulentos por instituições de pesquisa de outros países.

A organizadora desses 116 eventos é a Waset (Academia Mundial de Ciência, Engenharia e Tecnologia, na sigla em inglês). Apesar do nome, é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN.

Enquanto no exterior é apontada em alertas para pesquisadores não participarem de suas conferências nem publicarem em suas revistas, no Brasil a Waset aparece na seleção baseada em critérios de qualidade de periódicos nacionais e estrangeiros, feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Disponível na plataforma on-line Qualis Periódicos, essa seleção da Capes orienta pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher revistas para publicar seus estudos. As informações são importantes para as carreiras acadêmicas, nas quais contam a quantidade de artigos publicados e a participação em conferências, que muitas vezes são organizadas por editoras de periódicos.

Sites como o da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da Sociedade Europeia de Redes Neurais e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset. Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição.

O ecólogo Alexandre Marco da Silva, professor da Unesp de Sorocaba, soube pela reportagem que seu nome está no comitê científico da 14ª Conferência Internacional de Geofísica e Engenharia Ambiental, um dos 116 eventos. “Eu nem sei que conferência é essa”, disse ele surpreso ao telefone, acrescentando que exigirá a retirada de seu nome do comitê.

Indicado em todos os 116 sites das conferências da Waset “marcadas” para 2016, o Hotel Windsor Guanabara também afirmou por meio de sua coordenação de eventos desconhecer esse agendamento, assim como mais 110 reuniões em 2017 e outras 110 em 2018.

“FALHA GRAVE”

A inclusão da Waset no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por cientistas ouvidos pela Folha, que preferiram não ser identificados para não se indisporem com a agência do MEC.

Exceção a esse anonimato foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à seleção da editora pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

A Waset também está na lista dos chamados “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet.

Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers. “Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall.

Em 2013, um ano após a Waset ter sido detectada pelo trabalho solitário de Beall, a Capes concluiu sua avaliação trienal da pós-graduação brasileira por 48 comitês de áreas da Capes, cada um deles com a média de 20 consultores. Mesmo sem seguir o padrão acadêmico de indicar datas de recebimento e de aceitação de artigos, a editora não foi rejeitada por 20 desses comitês.

Dez das classificações obtidas pela Waset no Qualis exigem registro em pelo menos duas bases de dados científicos. Apesar dessa regra, as publicações dessa editora constam apenas no desconhecido International Science Index, cujas iniciais são as mesmas do prestigiado ISI (Institute of Science Information), da Web of Science, que é a maior base mundial desse gênero.

Outra irregularidade da Waset no Qualis é constar erroneamente como título de periódico. Para complicar, a editora tem dez revistas, mas o registro da Capes faz com elas um imbróglio com quatro códigos numéricos ISSN. Dois desses registros são da Turquia, mas inválidos, e os outros dois, de Singapura, foram cancelados, segundo o Centro Internacional do ISSN, em Paris, na França.

RESPOSTA

A Waset não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. Em nota, a Capes foi evasiva sobre irregularidades na inclusão da Waset e de seus registros ISSN no Qualis e sobre a permanência da editora nessa seleção. Apesar dessa omissão, a agência federal alegou que “nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Veja a íntegra da nota:

A classificação na Capes de periódicos, livros e demais formas de produção intelectual não é feita a priori levando em considerações todas as editoras/publishers que existem ou aqueles que a cada momento, no mundo todo, estão lançando novos títulos.

No início do ano cada programa de pós-graduação (atualmente da ordem de mais de 5.700 cursos) que são devidamente avaliados e recomendados, constituindo assim o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), deve informar à Capes a produção intelectual realizada no ano anterior pelos seus professores, pesquisadores e alunos.

Esta informação declarada pelos cursos de pós mostra que, atualmente (dados de 2013), a produção intelectual da pós-graduação brasileira é publicada em periódicos da ordem de mais de 30 (trinta) mil títulos, editados em dezenas de países.

Quando da classificação (Qualis) destas revistas para fins de avaliação (notas) do SNPG, que é feita pela comunidade acadêmico-científica através de comissões das 48 áreas de conhecimento, são considerados vários aspectos sobre as mesmas. Nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis e os artigos publicados nas mesmas são desconsiderados na avaliação. Isto ocorreu na última avaliação trienal, quando mais de 60 (sessenta) revistas foram retiradas do Qualis, mesmo tendo tido classificação (contabilização) em trienais anteriores.

É importante destacar que, com exceção da área de ensino (uma área nova na Capes e ainda sem a tradição das demais áreas), todos as revistas citadas foram mal classificadas no Qualis e no seu conjunto total representam apenas 0,1% do total de títulos constantes no Qualis. Desta forma, as mesmas não contribuem para a qualificação dos cursos de pós-graduação stricto sensu do Brasil, nem mesmo na área de ensino.

A Capes requer ao sr. Maurício Tuffani que faça constar na íntegra a resposta desta agência na matéria publicada. Caso contrário, a Capes publicará o seu ponto de vista na página da Capes.

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